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Manifesto

Nenhuma peça é vendida aqui sem que se saiba quem a desenhou.

Um baralho de tarot é um dos formatos mais improváveis que a arte encontrou para atravessar séculos: dezenas de imagens feitas para serem embaralhadas, manuseadas, gastas pelo uso. Sem moldura, sem parede de museu — e ainda assim chegaram até aqui.

A Authenthicos existe por causa de uma constatação simples: há arte séria circulando em objetos que quase ninguém trata como arte — cartas, grimórios, diários, ilustrações que ninguém assina em voz alta. Nossa tarefa é devolver o crédito a quem fez e a história a cada imagem.

Por isso não somos uma loja com um blog ao lado: aqui nenhuma peça é vendida sem que se saiba de onde ela veio, quem a desenhou e o que ela carrega.

O que a Casa é

Chamamos de Casa porque a palavra loja não dá conta: loja expõe produtos; casa tem cômodos, e em cada um se faz uma coisa diferente.

No Empório ficam as peças: decks de tarot e oráculos, grimórios, diários, livros e objetos escolhidos um a um. Em Vestígios ficam as pessoas — artistas, ilustradores e autores cujo trabalho chegou até nós. Na Biblioteca e no Arquivo, as leituras e os documentos que explicam de onde vêm os símbolos. Nas Correspondências, as cartas que a Casa escreve.

Quem entra por uma porta costuma sair por outra.

Por que ela existe

Boa parte da arte que circula em baralhos e grimórios circula sem nome. A imagem viaja, é reimpressa, vira estampa — e o crédito de quem a desenhou fica pelo caminho. Quando o autor some, some junto a história: o ano, a técnica, a razão de aquela figura segurar aquele objeto.

A Casa existe para reverter isso na medida do que alcança: publicamos e reunimos obras dizendo quem fez, como fez e de onde veio. É trabalho de edição, não de vitrine.

Obra, história, artista — nessa ordem

Toda peça daqui é lida em três camadas.

A obra vem primeiro: a imagem, o papel, o corte, a impressão — o que a sua mão vai sentir. Depois vem a história: a tradição que aquela imagem herda, os símbolos que repete e os que inventa. Por último, e nunca por acaso, vem o artista: a pessoa que decidiu cada traço.

Nenhuma das três se sustenta sozinha. Imagem bonita sem história é decoração; história sem obra é aula. Quando as três se encontram, há motivo para guardar aquilo a vida inteira.

Um capítulo da história da arte

Tratamos o tarot, os oráculos e os grimórios pelo que eles são para nós: um capítulo da história da arte.

Antes de virarem baralho de adivinhação, as cartas foram jogo de corte, exercício de gravura e catálogo de alegorias. Os grimórios foram manuscritos copiados à mão, com caligrafia e ornamento. No início do século XX, a ilustradora Pamela Colman Smith desenhou um dos baralhos mais reproduzidos do mundo e passou décadas quase sem crédito por ele. Antes dela, os pré-rafaelitas já tinham voltado à imaginação medieval e literária para pintar suas figuras.

É essa a linhagem que nos interessa: pintura, gravura, ilustração de livro, ornamento.

O que escolhemos, e o que recusamos

Escolhemos poucas peças, devagar. Preferimos um deck com autoria clara a dez sem procedência, e dizer “esgotado” a empurrar um substituto que não é a mesma coisa.

Recusamos o resto com a mesma clareza. Não vendemos promessa de sorte, de cura ou de destino — quem procura isso vai encontrar outra porta, e tudo bem. Não usamos contagem regressiva, escassez inventada nem elogio que a descrição do produto não sustente. Não publicamos imagem sem saber de quem é.

Isso deixa a Casa menor do que ela poderia ser. É uma troca que fazemos de olhos abertos.

Uma imagem sobrevive enquanto alguém souber contar de onde ela veio. É esse o trabalho da Casa: guardar a história junto com a obra e entregar as duas na mesma caixa.

Authenthicos · Cada Arte uma História