As muitas vidas do Tarot.
Conheça um pouquinho da verdadeira história do sistema simbôlico mais importante de todos os tempos. De jogo de corte italiano a oráculo moderno. Não veio do Egito antigo, nem é um segredo ancestral, mas mesmo assim, apresenta uma História rica e dinâmica que a cada dia expande mais e entra na vida do Homem.

Quase toda pessoa que se aproxima do tarot ouve, em algum momento, a mesma história: que as cartas seriam restos de um livro egípcio antiquíssimo, salvo do desaparecimento e disfarçado de jogo. É uma bela história, porém não há um único documento que a sustente. A história real é mais curiosa, mais rastreável e, para quem gosta de arte, bem mais divertida.
Primeiro chegam as cartas
As cartas de jogar aparecem na Europa no fim do século XIV, e aparecem de repente: em poucos anos há registros delas em várias cidades, inclusive proibições municipais, o que costuma ser o melhor indício de que algo virou moda. Vieram, ao que tudo indica, pelo Mediterrâneo islâmico. Os baralhos de origem mameluca traziam quatro naipes — taças, moedas, espadas e bastões de polo — que na Europa viraram copas, ouros, espadas e paus. A estrutura de quatro naipes que usamos até hoje já estava lá antes de existir tarot.
O jogo dos triunfos
Na primeira metade do século XV, nas cortes do norte da Itália — Milão, Ferrara, Bolonha —, alguém teve uma ideia de jogo: acrescentar aos quatro naipes uma quinta série de cartas figuradas que vence todas as outras. Chamaram o jogo de trionfi, triunfos; mais tarde, tarocchi. Essa quinta série é o que hoje chamamos de arcanos maiores, e o mecanismo do trunfo permanente é um dos ancestrais diretos dos jogos de carta modernos. O tarot, portanto, não nasce como oráculo. Nasce como jogo..

Os exemplares mais antigos que sobreviveram são luxuosos. Foram produzidos pelo artista Bonifácio Bembo sob a encomenda de famílias ricas da corte italiana em Milão, como os Visconti-Sforza. Baralhos ricamente pintados à mão, com fundo de ouro, prata e detalhes de retrato renascentista. Hoje estão espalhados por museus e bibliotecas, incompletos, cada instituição com um punhado de cartas. As figuras não eram enigmas secretos para os contemporâneos — eram o vocabulário visual da época: as virtudes, a roda da fortuna, a morte, o eremita, o carro de triunfo, o enforcado dos infames. Historiadores relacionam boa parte dessa iconografia às procissões triunfais, à literatura alegórica e à imagística religiosa e cívica que qualquer pessoa daquele mundo reconhecia de olhos fechados.

Com a xilogravura, o baralho barateia e se espalha. Entre os séculos XVII e XVIII consolida-se na França um padrão de impressão que ficaria conhecido como Tarot de Marselha: traço firme, cores chapadas aplicadas por estêncil, sequência de trunfos estabilizada. É esse desenho — não o dos baralhos de corte — que a maioria das pessoas tem na cabeça quando pensa em tarot antigo. E ele continuava sendo, sobretudo, material de jogo. E hoje é ficou conhecido como o Sistema de Marseille.
Quando o tarot vira oráculo
A virada acontece na França do fim do século XVIII quando alguns pensadores começam a olhar o tarot de uma outra forma e especificamente em 1781, quando o erudito Antoine Court de Gébelin propõe a ideia de que o tarot seria uma espécie de livro de sabedoria ancestral com origem egípcia, ligado ao mítico Livro do Deus Thoth. Hoje, essa teoria não se sustenta e foi demonstrada falsa, mas ainda assim a sua importância foi crucial para a divulgação do Tarot no mundo do ocultismo. A partir dai, o tarot começa a ser lido não apenas como um jogo, mas como repositório de uma sabedoria antiga.

Nascia assim, uma nova vertente do Tarot, na sua versão divinatória, quando logo em seguida, Jean-Baptiste Alliette, conhecido como Etteilla, desenvolve um sistema mais estruturado de leitura divinatória com tarot. Ele criou significados para cartas, métodos de leitura e ajudou a estabelecer o tarot como ferramenta de cartomancia. E a partir daí e também com o advento da impressa e o uso da técnica de xilogravura, o tarot sai das mãos da corte rica e se populariza, vivendo um importante movimento de expansão e disseminação, agora, em especial, com a ideia de previsão do futuro. Pessoas comuns passam a ter acesso às cartas e aos manuais agora impressos e muito mais acessíveis.

No século XIX, Eliphas Lévi, considerado por muitos como o pai do Ocultismo moderno, associa o tarot à Cabala, à magia cerimonial, à astrologia e a sistemas esotéricos mais complexos. O tarot passa então a ser visto como uma síntese simbólica do universo. Ele correlaciona os vinte e dois trunfos às vinte e duas letras do alfabeto hebraico. Constrói-se assim, mais uma arquitetura de correspondências. Cada carta poderia estar ligada a letras hebraicas, planetas, signos, elementos, caminhos espirituais, ideias filosóficas.

Esse movimento culmina, em grande parte, nas ordens esotéricas do fim do século XIX e início do século XX, especialmente a Hermetic Order of the Golden Dawn. É nesse ambiente que surge um dos tarots mais influentes da história: o Rider-Waite-Smith Tarot, publicado em 1909.
Tarot Rider Waite Smith
Em 1909 é publicado o tarot mais influente da História. Um baralho idealizado por Arthur Edward Waite e ilustrado por Pamela Colman Smith. Ele traz uma grande inovação ao tarot então existente na época, quando Pamela cria narrativa e cenário para cada carta dos arcanos menores, enriquecendo de forma substancial o simbolismo presente em cada carta. Ela deu corpo emocional às cartas dos arcanos menores que até então eram representadas apenas por números e figuras dos naipes. E essa mudança foi gigantesca pois ela aproximou o tarot da narrativa. O tarot agora não possui apenas símbolos, mas também conta histórias. Nasceu assim o Sistema Rider Waite Smith que seria então seguido pela grande maioria dos tarots da atualidade.

Tarot de Thoth
Nos anos 1940, outro marco importante acontece com o surgimento do Tarot de Toth, que foi criado por Aleister Crowley e pintado por Frieda Harris nessa época, mas foi publicado apenas anos depois, em 1969. E Esse deck segue um caminho mais abstrato, mais esotérico, mais ligado à astrologia, à Cabala, à alquimia e à magia cerimonial. Se o Rider-Waite-Smith popularizou o tarot como narrativa visual, o Thoth intensificou o tarot como sistema mágico e filosófico.

Tarot como Espelho da Alma / Ferramenta de Autoconhecimento
Existe ainda uma etapa fundamental nessa história. Durante o século XX, o tarot passa por uma transformação silenciosa, mas profunda. Ele começa a ser visto não apenas como uma ferramenta de previsão ou um sistema ocultista, mas também como um instrumento de exploração psicológica. E aqui surge uma figura cuja influência sobre o tarot moderno é difícil de exagerar: Carl Jung. Jung não era tarólogo, era psiquiatra. Ao longo de sua vida, dedicou-se a compreender os símbolos, os mitos, os sonhos e os padrões que aparecem repetidamente nas diferentes culturas humanas. Foi ele quem desenvolveu conceitos como o inconsciente coletivo e os arquétipos. Segundo Jung, existem imagens fundamentais que habitam profundamente a psique humana. Essas imagens aparecem em sonhos, contos de fadas, religiões, mitologias e obras de arte ao redor do mundo. Quando observamos os Arcanos Maiores do tarot, é difícil não perceber essa conexão. O Louco, o Mago, a Imperatriz, o Eremita, a Morte, a Lua, o Mundo. Todos parecem representar experiências universais da jornada humana. Embora Jung não tenha desenvolvido uma teoria formal sobre o tarot, ele reconheceu o valor dos símbolos e chegou a mencionar que as cartas poderiam ser vistas como representações de arquétipos psicológicos. Essa mudança foi extremamente importante. Pela primeira vez, muitas pessoas passaram a olhar para o tarot não como uma ferramenta sobrenatural, mas como uma linguagem simbólica capaz de revelar conteúdos internos. Foi através dessa lente psicológica que o tarot ganhou uma nova legitimidade no século XX. Ele começou a dialogar com psicólogos, terapeutas, artistas, escritores e estudiosos dos símbolos. E talvez seja justamente por isso que o tarot continua relevante até hoje. Porque independentemente das crenças de cada pessoa, as imagens continuam funcionando como espelhos. Elas nos convidam a refletir, a interpretar e a encontrar significado. Nesse sentido, a contribuição de Jung ajudou a deslocar o tarot do campo exclusivo da adivinhação para o campo mais amplo da imaginação, do simbolismo e do autoconhecimento.

Tarot Contemporâneo
E então chegamos ao tarot contemporâneo. Hoje, o tarot vive uma nova transformação. Ele continua sendo usado para divinação. Continua sendo usado em práticas espirituais. Mas também se tornou ferramenta de autoconhecimento, estudo simbólico, journaling, criação artística, terapia narrativa, contemplação e expressão pessoal. Muitas pessoas compram decks não apenas para prever acontecimentos, mas para pensar sobre a própria vida. Outras compram porque amam a arte. Outras porque colecionam. Outras porque veem no tarot uma forma de organizar perguntas internas. E isso é fascinante. Porque, de certa forma, o tarot voltou a ser aquilo que sempre foi: uma coleção de imagens humanas. E assim o baralho virou um formato autoral. Artistas passam a usar as setenta e oito cartas como um pintor usa uma série — um conjunto com regras, sequência e ritmo, dentro do qual se pode contar qualquer coisa e desenhar qualquer história. Uma verdadeira coleção de imagens humanas. Tem algo mais fascinante do que isso?

