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vestígios

Etteilla: o homem que primeiro usou o Tarot para prever o futuro

Muito antes de Waite e Crowley, Jean-Baptiste Alliette — conhecido como Etteilla — já transformava cartas em linguagem divinatória. No século XVIII, ele sistematizou métodos de cartomancia, escreveu alguns dos primeiros tratados dedicados ao Tarot e criou um dos primeiros baralhos concebidos especificamente para a adivinhação. Neste artigo, revisitamos sua trajetória, suas ideias e o papel fundamental que desempenhou na formação do Tarot esotérico moderno.

Muito antes de Arthur Edward Waite, Pamela Colman Smith, Aleister Crowley ou mesmo Éliphas Lévi deixarem suas marcas na história do Tarot, um homem em Paris começou a fazer algo que mudaria profundamente o destino das cartas. Seu nome era Jean-Baptiste Alliette.

Seu nome era Jean-Baptiste Alliette. Ou, como passaria a ser conhecido: Etteilla — simplesmente seu sobrenome, Alliette, escrito de trás para frente.

Nascido em Paris em 1738, Etteilla viveu em um período extraordinário da história europeia. Era o século das Luzes, da Enciclopédia e da valorização da razão, mas também uma época profundamente fascinada pela astrologia, pela alquimia, pela adivinhação e pelos conhecimentos considerados ocultos. Foi nesse ambiente que Etteilla transformou a leitura das cartas em algo que começava a se aproximar daquilo que hoje reconhecemos como a prática moderna do Tarot.

Antes do Tarot, vieram as cartas

Imagem do British Museum - conjunto de cartas de cartomancia ligado ao sistema de Etteilla
Imagem do British Museum - conjunto de cartas de cartomancia ligado ao sistema de Etteilla

Em 1770, Etteilla publicou uma pequena obra intitulada Etteilla, ou manière de se récréer avec un jeu de cartes — algo como “Etteilla, ou maneira de se recrear com um jogo de cartas”. O livro ainda não tratava propriamente do Tarot. Seu objeto era um baralho comum de cartas, utilizado segundo um sistema de interpretação divinatória.

Livro de Etteilla
Livro de Etteilla

Mas havia ali algo importante: Etteilla buscava organizar a cartomancia. As cartas deixavam de depender apenas de interpretações transmitidas oralmente ou da intuição de quem as lia. Elas começavam a receber significados definidos, métodos de disposição e regras de interpretação. Em outras palavras, aquilo que antes podia existir como prática dispersa começava a adquirir a forma de um sistema. Foi apenas alguns anos depois que Etteilla se voltaria inteiramente para o Tarot.

Cartas de cartomancia ligado ao sistema de Etteilla
Cartas de cartomancia ligado ao sistema de Etteilla
Cartas de cartomancia ligado ao sistema de Etteilla
Cartas de cartomancia ligado ao sistema de Etteilla
Cartas de cartomancia ligado ao sistema de Etteilla
Cartas de cartomancia ligado ao sistema de Etteilla

O encontro entre Tarot e ocultismo

Em 1781, Antoine Court de Gébelin publicou no oitavo volume de sua monumental obra Le Monde primitif um ensaio que teria enorme influência sobre a história posterior do Tarot. Gébelin propunha que aquelas cartas aparentemente utilizadas para jogos guardavam restos de uma antiga sabedoria egípcia.

Historicamente, hoje sabemos que a origem egípcia do Tarot não possui sustentação documental. Os primeiros tarots conhecidos surgiram na Itália do século XV e foram inicialmente utilizados como jogos de cartas. Mas a ideia de Gébelin foi explosiva. Se aquelas imagens fossem vestígios de uma antiga tradição de sabedoria, então o Tarot poderia ser muito mais do que um jogo. muito além. t

Etteilla levou essa possibilidade muito além. Entre 1783 e 1785, publicou os diferentes cadernos de sua obra Manière de se récréer avec le jeu de cartes nommées Tarots — “Maneira de se recrear com o jogo de cartas chamado Tarot”. Era uma tentativa ambiciosa de explicar como aquelas cartas poderiam ser utilizadas para a adivinhação e como se relacionavam com conhecimentos como astrologia, os quatro elementos e outras correspondências esotéricas.

Ali começava a nascer algo inteiramente novo. Não apenas a leitura do Tarot, mas um sistema esotérico construído ao redor dele.

O primeiro Tarot criado para a adivinhação

Talvez a maior contribuição de Etteilla tenha sido perceber que não precisava apenas interpretar um Tarot já existente. Ele poderia criar um Tarot destinado especificamente a essa finalidade.

Carta do Tarot Gran Etteilla
Carta do Tarot Gran Etteilla
Carta do Tarot Gran Etteilla
Carta do Tarot Gran Etteilla

Por volta do final da década de 1780 surgiu o baralho que posteriormente ficaria conhecido como Grand Etteilla.

Sua estrutura se afastava consideravelmente dos tarôs tradicionais. Etteilla reorganizou as cartas, modificou imagens, introduziu referências cosmológicas e egípcias e incorporou diretamente ao baralho seu sistema de correspondências e significados. e

Era uma mudança fundamental. Os tarôs anteriores haviam nascido primordialmente como jogos e, mais tarde, recebido interpretações divinatórias. O Tarot de Etteilla fazia o movimento contrário: ele era concebido desde sua origem para ser lido. Por isso, costuma ser considerado o primeiro Tarot criado especificamente para fins ocultistas e divinatórios.

Cartas direitas e invertidas

Há outro elemento do trabalho de Etteilla que parece tão familiar hoje que facilmente esquecemos que alguém precisou sistematizá-lo. As cartas poderiam apresentar significados diferentes conforme aparecessem direitas ou invertidas. No sistema de Etteilla, cada posição possuía uma interpretação própria.

Essa característica ampliava enormemente o vocabulário possível de uma leitura. Uma mesma imagem passava a conter duas possibilidades, criando contrastes, tensões e desdobramentos. O uso de cartas invertidas não é obrigatório na leitura contemporânea — muitos tarólogos preferem não utilizá-las —, mas sua presença na tradição moderna deve muito à sistematização realizada por Etteilla.

Um profissional das cartas

Etteilla também representa outra transformação importante. Ele não foi apenas alguém que escreveu sobre Tarot. Ele viveu de sua prática. Oferecia consultas, ensinava seus métodos, publicava livros e desenvolvia um círculo de estudantes. Por isso, é frequentemente apontado como o primeiro cartomante profissional de Tarot de que possuímos documentação clara.

Isso pode parecer um detalhe biográfico, mas é uma mudança cultural profunda. Com Etteilla, o Tarot começava a deixar o espaço do entretenimento privado e ingressava em um novo território: o de uma prática que poderia ser estudada, ensinada e exercida profissionalmente. Nascia, em certo sentido, a figura do tarólogo moderno.

O Egito imaginado por Etteilla

Etteilla acreditava que o Tarot preservava uma antiga sabedoria egípcia associada ao lendário Livro de Thoth.

Sabemos hoje que essa genealogia não corresponde à história documentada das cartas. Mas talvez seja mais interessante compreender por que essa ideia foi tão poderosa.

O Egito do século XVIII não era apenas um lugar histórico. Para muitos ocultistas europeus, ele representava a imagem de uma civilização primordial detentora de conhecimentos sobre os mistérios da natureza, dos astros e da alma humana. Ao ligar o Tarot ao Egito, Etteilla o retirava simbolicamente do universo dos jogos e o colocava dentro de uma linhagem de conhecimento sagrado.

A história estava errada. Mas o imaginário que ela produziu teria uma influência gigantesca. Nos séculos seguintes, o Tarot seria sucessivamente associado à Cabala, à astrologia, à alquimia, à magia cerimonial e a diferentes sistemas filosóficos e esotéricos. Etteilla havia ajudado a abrir essa porta.

Antes de Waite e Crowley

Quando olhamos hoje para a história do Tarot, existe uma tendência natural de começar pelo sistema Rider-Waite-Smith, publicado em 1909. Ele é, afinal, a base visual de grande parte dos baralhos modernos. Mas entre Etteilla e Waite existe mais de um século de desenvolvimento esotérico.

Éliphas Lévi relacionaria profundamente o Tarot com a Cabala no século XIX. Papus desenvolveria suas próprias interpretações. A Golden Dawn criaria um vasto sistema de correspondências entre Tarot, astrologia, Cabala e magia cerimonial. Waite e Pamela Colman Smith produziriam um baralho cuja influência atravessaria todo o século XX.

Crowley e Frieda Harris criariam o Tarot de Thoth. Mas Etteilla veio antes de todos eles. Quando muitos dos sistemas que hoje consideramos tradicionais ainda não existiam, ele já tentava construir uma linguagem completa para as cartas.

O legado de Etteilla

Quando hoje abrimos um baralho e procuramos o significado de uma carta; quando utilizamos uma disposição estruturada; quando estudamos correspondências entre cartas, planetas e elementos; quando consideramos diferenças entre cartas direitas e invertidas; ou simplesmente quando procuramos aprender Tarot por meio de um livro e de um sistema organizado, estamos participando de uma história que passou, em algum momento, pelas mãos de Etteilla.

Mais de duzentos anos depois, algumas de suas ideias permaneceram, outras foram transformadas e muitas foram abandonadas. Mas talvez essa seja justamente a natureza das tradições vivas. Elas não permanecem intactas. São recebidas, reinterpretadas e transmitidas novamente.

Etteilla recebeu um antigo jogo de cartas e viu nele algo diferente. Transformou-o em linguagem. E dessa linguagem surgiria uma parte importante daquilo que hoje chamamos de Tarot.

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